Todos os tentáculos do império IURD

Igreja controla uma cidade, o Rio, um partido, o ministério da Indústria, um grupo de comunicação e, consta, até um mini exército

O que fazem a ex-presidente Dilma Rousseff, do PT, o presidente Michel Temer, do PMDB, e o governador do estado de São Paulo e pré-candidato a presidente Geraldo Alckmin, do PSDB, lado a lado num altar? A pergunta até pode parecer o início de alguma anedota mas não é: Dilma, Temer e Alckmin estiveram, de facto, juntinhos na inauguração do maior espaço religioso do Brasil, o Templo de Salomão, em São Paulo, nova sede da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), para prestigiar o seu fundador bispo Edir Macedo. O poder da igreja evangélica neopentecostal mede-se em imagens como essa.

E em factos: um bispo da IURD ocupa a prefeitura do Rio de Janeiro, segunda maior cidade do país. Outro bispo gere o ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços e preside ao sexto maior partido brasileiro. A igreja é dona da Record, poderoso grupo de comunicação cujas audiências televisivas só perdem para a Globo. E ainda treina um grupo, chamado Gladiadores do Altar, que os seus detratores chamam de exército da Universal.

O assunto foi notícia no Brasil em Março de 2015, depois das religiões de origem africana Umbanda e Candomblé se terem queixado de agressões nos seus terreiros por parte de elementos ligados à IURD. E de terem sido divulgados, mais ou menos na mesma altura, vídeos com os tais Gladiadores do Altar, grupo de jovens a bater a continência e a gritar com agressividade "altar, altar, altar" e "prontos para a batalha", num culto da Universal. "É uma atitude para-militar, elementos da IURD perseguem membros de religiões afro nas ruas, temos de agir, não podemos ficar à espera que um grupo fundamentalista pegue em armas", acusou o advogado dos credos africanos Luiz Martins. No parlamento, Jean Wyllys, deputado do Partido Socialismo e Liberdade, de extrema-esquerda, confessou sentir-se "assustado". A IURD negou na ocasião, com veemência, que os Gladiadores do Altar fossem o tentáculo armado da instituição. "O projeto realiza reuniões semanais com rapazes dispostos a abrir mão de suas vidas (...) cumprindo o que Jesus disse "ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda a criatura"", lia-se sobre o tema no website da igreja.


Mas a IURD, que enquanto credo evangélico juntou em 40 anos mais de oito milhões de fiéis, está em quase 200 países e abriga milhares de pastores, tem indiscutivelmente um tentáculo político. O bispo Marcelo Crivella, o sobrinho de Edir Macedo que disse um dia numa pregação que "os gays são fruto de um aborto mal sucedido", foi eleito prefeito do Rio, cartão postal do país. Além de Crivella, membro do Partido Republicano Brasileiro, força política que a IURD influencia, outro bispo, o líder do partido Marcos Pereira, senta-se ao lado de Temer nos conselhos de ministros. E segundo a pesquisadora da Universidade Federal Fluminense Christina Vital o fim último dos evangélicos - não necessariamente apenas da IURD - "é conquistar o Palácio do Planalto em 2018". Jair Bolsonaro, pré-candidato de extrema-direita pelo Patriotas e segundo classificado nas sondagens, já foi batizado no ano passado nas águas do Rio Jordão por um protestante, o Pastor Everaldo, da pentecostal Assembleia de Deus.

Nos media, Macedo é proprietário do grupo Record, quarto do Brasil atrás dos grupos Globo, Abril e Folha. Em audiências e faturação, a TV Record, no entanto, só perde para a TV Globo, superando os também enormes SBT e Bandeirantes. E lidera, através da Record News, no segmento dos canais de notícias, deixando Globo News e Band News para trás. Com 106 emissoras regionais pelo país, num total de 240 horas diárias de TV, mais o portal R7 na internet e o jornal O Correio do Povo nas bancas, a sua influência é pesada. Ainda não conseguiu produzir uma telenovela em horário nobre que superasse as da Globo mas esteve perto, em 2015, com o apoio da bancada parlamentar evangélica, no folhetim bíblico Os 10 Mandamentos - o líder dessa bancada, conhecida como Bancada da Bíblia, pediu aos milhões de fiéis protestantes para boicotarem Babilônia, concorrente da TV Globo transmitida à mesma hora, por causa de um beijo na boca entre as atrizes veteranas Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg no primeiro episódio.

O poder da IURD mede-se também pelo tamanho dos seus principais inimigos: a Globo (embora tenha tido guerras paralelas com os grupos Abril e Folha) e o Vaticano (além do conflito citado com as afro-religiões e de choques frontais com denominações evangélicas concorrentes). Preso durante 11 dias em 1992 por "charlatanismo", Edir Macedo responsabilizou a igreja católica pela humilhação. Um ano antes, a IURD conseguira reunir 200 mil fiéis no Estádio do Maracanã em resposta aos 130 mil que o Papa João Paulo II levara ao Santuário de Aparecida. Aliás, uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida, a padroeira do Brasil, seria chutada num programa de TV por um bispo evangélico, em 1995, num escândalo que abalou o país - os protestantes rejeitam o culto a imagens e santos.

Por outro lado, os casos na justiça envolvendo Macedo ou a IURD são incontáveis: além das acusações de charlatanismo e de intolerância religiosa, o bispo ou a sua igreja já foram denunciados por importação fraudulenta (em 2006), lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha (em 2009). No Brasil, em Espanha, no Luxemburgo, nos Estados Unidos, na Bélgica ou em Angola, a Universal já esteve, por motivos diferentes, na mira dos tribunais ou da imprensa. Como agora, em Portugal, nas recentes reportagens da TVI sobre adoções.

Condenada por vasectomia

Em 2014, o Tribunal Superior do Trabalho condenou a IURD ao pagamento de 25 mil euros a um ex-pastor que realizou uma vasectomia. De acordo com a imprensa brasileira, o pastor foi incentivado a ser submetido à intervenção para ser promovido ao cargo de bispo da congregação. Segundo o mesmo, o pedido era sustentado com o facto de as novas funções exigirem uma grande dedicação, o que podia ser prejudicado se tivesse filhos. Uma acusação que a IURD negou, alegando que a operação aconteceu por vontade do pastor. E esta não foi a primeira vez que a IURD foi acusada de proibir os pastores de ter filhos biológicos.

É um percurso abarrotado de sucessos e de controvérsias que começou em 1977, num acanhado coreto da Praça Jardim do Méier, no Rio de Janeiro, onde Macedo e o seu cunhado Romildo Soares, hoje concorrente, na qualidade de líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, convenceram os primeiros fiéis, munidos apenas de uma aparelhagem sonora e de uma Bíblia. E que acabou no Templo de Salomão, maior espaço religioso do Brasil, maior até que o Santuário de Nossa Senhora de Aparecida e mais alto ainda do que o Cristo Redentor, abençoado na sua inauguração por Dilma, Temer e Alckmin.

Investigação em Portugal

Pelo menos dez crianças terão sido alvo de adoções ilegais por bispos e pastores da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) na década de 90. A informação foi revelada na reportagem "O Segredo dos Deuses", transmitida pela TVI, e o caso já está a ser investigado pelo Ministério Público.

A investigação da estação televisiva alega que a IURD financiava um lar, a "Casa de Acolhimento Mão Amiga", onde as crianças estariam de forma provisória, porque as famílias passavam dificuldades, mas que, à revelia dos pais, acabavam por ser adotadas de forma ilegal, sem direito de contraditório às famílias. Uma das mães conta que não a deixavam assinar o livro de registo quando visitava os filhos, o que pesa no processo de adoção, e que foi descrita por uma técnica da Segurança Social como sendo toxicodependente e seropositiva.

Edir Macedo, o líder máximo da IURD, estará envolvido na rede internacional de adoções ilegais de crianças e, de acordo com a mesma investigação, os seus próprios "netos" são "crianças roubadas do Lar Universal, uma instituição que à época fazia parte da obra social da igreja". Vera de Andrade e Luís Carlos de Andrade, os "netos", pronunciaram-se na semana passada, através de um vídeo, alegando que a reportagem faz acusações que não são verdadeiras. "Nós não fomos raptados, fomos adotados de forma legal por uma família americana e vivemos até os nossos 20 anos com esta família nos Estados Unidos", disse Luís. Também a IURD emitiu um comunicado, no qual nega as acusações, que diz serem baseadas num depoimento falso de um ex-bispo.

Entretanto, o Ministério Público abriu um inquérito sobre a situação, que, como explicou em comunicado, foi remetido ao DIAP [Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa] para investigação. Os crimes, cometidos entre 1994 e o final da década de 90, já prescreveram, mas as mães portuguesas ponderam lutar na justiça. "As mães estão a equacionar a possibilidade de processar o Estado português numa ação conjunta. Mas não pensam avançar com uma ação contra a IURD porque consideram que iriam reclamar dinheiro sujo", adiantou recentemente ao DN a jornalista Alexandra Borges, co-autora, juntamente com Judite França, da série de informação "O Segredo dos Deuses", que teve um grande eco nos principais jornais online no Brasil.

De acordo com a Renascença, pelo menos desde o ano 2000 que a Segurança Social teria conhecimento das denúncias relativas ao alegado roubo de crianças do centro de acolhimento financiado IURD. Terá sido feito uma denúncia através da linha SOS Criança, o serviço de atendimento telefónico de apoio pertencente ao Instituto de Apoio à Criança, mas a Segurança Social só agiu agora, na sequência da reportagem exibida. Com Joana Capucho

Em São Paulo

Via: DN